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A tecnologia pode contribuir muito com a saúde, diz Cristiano Englert

Cristiano Englert está tendo a oportunidade de acompanhar o cenário de combate ao Covid-19 pelos dois lados. O do profissional da saúde, como médico anestesista atuando direto no front, e como um dos cofundadores da GROW+ Aceleradora de Startups e head do HealthPlus, instalado no Tecnopuc. “O ambiente no hospital está mais tenso que o geral, com cuidados ainda mais rígidos com segurança e parâmetros a serem seguidos. Temos que estar 100% atualizados sobre como tratar os pacientes e as startups e suas soluções estão contribuindo muito com esse cenário”, afirma.

GROW+ – Temos visto uma forte mobilização dos ecossistemas de inovação brasileiros na busca por soluções que possam apoiar as diversas frentes de combate a Covid-19. É o momento das healthtechs mostrarem o seu valor?

Cristiano Englert – Sem dúvida, as healthtechs podem ajudar muito nesse embate contra a pandemia, apoiando desde a comunicação com informação de credibilidade dos casos e formas de prevenção para a população como por meio de soluções que possam ser usadas pelos profissionais da saúde e governos. O que vemos agora é um boom, a cada dia uma nova solução surgindo e algumas startups de saúde passando a trabalhar com prontuários eletrônicos ou telemedicina, por exemplo. As que forem melhores, mais ágeis e que tiverem um modelo de negócios mais claro, vão avançar.

GROW+ – Ao mesmo tempo, trata-se de jovens empresas e empreendedores muitas vezes sem muita experiência. Como se manter firme no mercado em um momento tão desafiador?

Englert – Sem dúvida. Vamos ter um amadurecimento maior das healthtechs, mas elas terão antes que conseguir atravessar esse período de crise. Tem muitas startups de saúde com modelos B2B que estão enfrentando dificuldades, com contratos sendo  suspensos em função deste cenário. Empresas com soluções de realidade virtual presencial para treinamentos de médicos, por exemplo, estão tendo que rever e readequar seus produtos. Algumas talvez tenham que pivotar para soluções voltadas a Covid-19, que é onde tem uma demanda real hoje.

GROW+ – Como você vê a liberação temporária da telemedicina?

Englert – A telemedicina era algo que estava represado há muito tempo, dependendo de regulamentação. Liberaram nesse momento e depois vão reavaliar, mas acho que é caminho sem volta. O que temos agora é a possibilidade de o médico fazer atendimento remoto a pacientes com sintomas de Covid-19 ou, por exemplo, àqueles que tenham doenças crônicas e que precisam manter recorrência no tratamento. Isso evita que as pessoas tenham que ir a consultórios ou hospitais. É uma decisão importante até porque a telemedicina envolve o atendimento ao paciente, mas também outra modalidade que é a interconsulta, quando especialistas de uma determinada área podem falar com outros profissionais para apoiar o diagnóstico. Em alguns cenários isso pode ser decisivo, como para ajudar hospitais em cidades menos desenvolvidas e sem tantos médicos especializados. É uma oportunidade de as empresas avançarem nas suas soluções.

GROW+ – Qual o legado que deve ficar desta pandemia para a área de tecnologia e as instituições de saúde?

Englert – Um dos legados dessa pandemia são os ensinamentos sobre a importância da capacidade de organizarmos essa quantidade imensa de informações que estão aí e que podem ajudar no combate à pandemia. A ciência e a medicina já enfrentaram grandes epidemias, mas a Covid-19 pegou todos desprevenidos porque não se consegue controlar todos os dados e prever com precisão maior para a tomada de decisão. Por isso, soluções de gestão dos dados serão muito demandadas. Hoje em dia, um dos pontos mais sensíveis para a telemedicina é a incerteza do acompanhamento da jornada do paciente. Mesmo sendo uma consulta remota, algumas questões precisam ficar documentadas sobre o atendimento, além de ser muito importante ter uma integração com prontuário eletrônico e receitas médicas eletrônicas. Isso ainda não estava 100% pronto antes da pandemia, por isso existe essa corrida das empresas, startups e profissionais da saúde em se adaptarem a essa nova realidade.